Revista Hospitalidade, Ano V, nmero 2, segundo semestre de 2008

HOSPITALIDADE E FESTA DO ESPRITO SANTO: CONTRIBUTOS DA CARIDADE, MISERICRDIA E COMENSALIDADE.

HOSPITALITY AND HOLY SPIRIT FEAST: CONTRIBUTIONS OF CHARITY, MERCY AND COMMENSALITY.

HOSPITALIDAD Y FIESTA DEL ESPRITU SANTO: CONTRIBUCIONES DE LA CARIDAD, MISERICORDIA Y COMENSALIDAD.

SUSANA GASTAL[1]

CRISTIANE MARTINS[2]

 

Resumo: O presente artigo, de teor ensastico, tem como objeto a Festa do Divino Esprito Santo, comemorada em Portugal e outros pases, entre eles o Brasil, onde a presena de imigrantes portugueses tenha sido significativa. Independentemente do local de comemorao, a Festa marca-se pela hospitalidade expressa na comensalidade, que parece ter na caridade e na misericrdia sua sustentao em termos de imaginrio. Para percorrer tal percurso de construo de sentido, opta-se por retomar a histria da festividade em Portugal e as marcas comuns da comemorao que emergem dos seus desdobramentos temporais, quais sejam, as figuras da caridade (bodo) e da misericrdia, que tecem amlgamas na comensalidade. Retomam-se, no primeiro momento, as razes etimolgicas dos termos caridade e misericrdia para, a seguir, buscar sua presena histrica na Festa. A anlise parece encaminhar, considerando a Festa do Divino Esprito Santo como comemorada em Alcntara, Maranho, que os mesmos indicadores estaro, em termos mais recentes, associados hospitalidade religiosa.

Palavras-chave: hospitalidade; imaginrios; caridade; misericrdia; Festa do Divino Esprito Santo, Alcntara-MA, Brasil.

 

Abstract: This essay has as object the Feast of the Divine Holy Spirit, celebrated in Portugal and other countries, Brazil among them, where the presence of Portuguese immigrants is significant. Regardless of the place of commemoration, the hospitality expressed in commensality is significant of the Feast, which seems to have important imaginary in charity and mercy. To understand significances of this imaginary, its important to research the common meanings of the celebration that emerge in Portugal, namely the charity (bodo) and mercy and their amalgams in commensality. The etymological roots of the terms "charity" and "mercy" are taken up again in the first moment, to seek its historical presence at the Feast. Considering the Feast of the Divine Holy Spirit as celebrated in Alcntara, Maranho, analysis seems indicate that in more recent terms the same imaginary is associate with religious hospitality.

Keywords: hospitality; imaginary; charity; mercy; Feast of the Divine Holy Spirit, Alcntara, Maranho, Brazil.

 

Resumen: Este artculo tiene por objeto la Fiesta del Espritu Santo, que se celebra en Portugal y otros pases, Brasil entre ellos, donde la presencia de inmigrantes portugueses hay sido significativo. Independiente del lugar de conmemoracin, la Fiesta se marca por la hospitalidad expresada en la comensalidad, que parece tener en la caridad y en la misericordia su sustentacin en trminos de imaginario. Para entender la construccin de sentido, retomamos la historia de la fiesta en Portugal y las marcas comunes de la celebracin que emergen en las figuras de la caridad y la misericordia, a tejer la comensalidad. Se reanudan, en el primer momento, las races etimolgicas de los trminos caridad y misericordia para, a continuacin, buscar su presencia histrica en la Fiesta. El anlisis parece encaminarse, considerando la Fiesta del Divino Espritu Santo como conmemorada en Alcntara, Maranho, que los mismos indicadores estarn, en trminos ms recientes, asociados a la hospitalidad religiosa.

Palabras clave: hospitalidad; imaginaria; la caridad; merced; Fiesta del Divino Espritu Santo, Alcntara-MA, Brasil.

 

1 INTRODUO

Em artigo anterior sobre as festas em honra ao Divino Esprito Santo, as autoras partiam do pressuposto de que a religio construo ordenadora das atividades humanas, no raro uma forma de guarida frente s mazelas do cotidiano, levando a que a festa religiosa se d como demonstrao de f, de escape e de liberao de sentimentos, ou ainda como momento de agradecimentos por benesses recebidas. Seguia-se Geertz (1957, p. 4), para quem a religio sistema de smbolos que estabelece sentimentos e motivaes poderosos, penetrantes, duradouros, pela formulao de concepes de uma ordem geral de existncia, podendo variar em termos de ritual e modos de adorao, assim como nas particularidades do festejar, em cada sociedade. Entretanto, no caso das festas religiosas, cada uma delas apresenta marcas comuns, na forma de imaginrios compartilhados, que garantem a continuidade na diversidade (GASTAL, GOMES, 2017; GOMES, GASTAL, CORIOLANO, 2015).

Entende-se por imaginrio o proposto por Maffesoli (2001), que o v na figura de um reservatrio motor, ou seja, um depsito em que se acumulam lembranas e experincias, leituras de vida, imagens percebidas, que alimentam sentimentos em termos de modos de ver e agir, os quais, por sua vez, impulsionam modos de ser e de estar no mundo. Silva (2003, p. 12) complementa que o imaginrio uma distoro involuntria do vivido que se cristaliza como uma marca individual ou grupal. Diferente do imaginado projeo irreal que poder se tornar real o imaginrio emana do real, estrutura-se como ideal e retorna ao real como elemento propulsor. Para Gastal (2005), os imaginrios falam de sentimentos, de desejos e de necessidades humanas, individuais ou coletivas.

Para percorrer o percurso de construo de sentido dos imaginrios associados Festa do Divino Esprito Santo, opta-se por retomar sua histria e as marcas comuns da comemorao que emergem dos seus desdobramentos temporais, quais sejam, as figuras da caridade (bodo) e da misericrdia, que tecem amlgamas na comensalidade e, e em termos mais recentes, na hospitalidade. Retomam-se, no primeiro momento, as razes etimolgicas dos termos caridade e misericrdia para, a seguir, buscar sua presena histrica na festa. Num segundo momento, os mesmos termos sero justapostos comensalidade, para finalizar com as tessituras envolvendo a hospitalidade na Festa do Divino Esprito Santo. Destacam-se no estudo emprico as comemoraes realizadas em Alcntara[3], no Estado do Maranho, localizado ao norte do Brasil. Em Alcntara misturam-se heranas indgenas e africanas, ainda presentes nos cerca de cem quilombos remanescentes do perodo colonial escravocrata, e que mantm suas tradies ancestrais.

As comemoraes em honra ao Esprito Santo so uma herana portuguesa, presente em vrios pontos do Brasil, ocorrendo geralmente no ms de maio. A Festa organizada pelo grupo de festeiros e pela Corte do Imprio, formado pelo Imperador (em alguns casos a Imperatriz), os Mordomos-Rgios, o Mestre-Sala[4] e os Vassalos (as personagens variando de acordo com o lugar). No caso de Alcntara, paramentam-se com trajes que reportam ao figurino aristocrtico do Brasil Colonial. O rito inicial acontece no Sbado de Aleluia, quando h o anncio do dia em que o Imperador ou a Imperatriz recepcionaro os convidados, com mesa farta. No domingo de Pentecostes h o cortejo de exaltao e a elevao da Bandeira e queima de fogos, e o esmolar em favor ao Divino, para o recolhimento de donativos. No segundo sbado, se d a distribuio de esmolas aos idosos. No ltimo domingo, h missa solene, seguida de procisso com a Coroa do Divino, retorno igreja e indicao dos festeiros do ano seguinte. A festa adquire contornos prprios e variaes amoldadas aos costumes locais, no se podendo, desta forma, engessa-la em um nico script.

Em todos os momentos dos festejos esto presentes a caridade e a misericrdia.

 

2 ESPRITO SANTO, CARIDADE E MISERICRDIA

Caridade e misericrdia so duas palavras importantes para compreender a Festa do Divino Esprito Santo. Um passeio lingustico-semntico[5] coloca a palavra caridade [caritate] como originada na latina carus, que designa algum querido e de grande apreo. Caritas, na mesma origem, significaria afeto e amor, em afinidade, entre outras, com carcia. A origem mais remota estaria no grego chris, significando graa, da qual derivaria carisma, que na teologia catlica dom do Esprito Santo a servio da comunidade (CREVELIN, 2017, p. 11).

No portugus, caridade ganha sentido de altrusmo ou o de buscar fazer de forma altrusta, sem esperar por tal ao, qualquer recompensa, levando a sua associao esmola. Semanticamente [...] a conexo estreita entre caridade e hospitalidade se manifesta pelo fato de que, em um ato concreto de acolhimento, a palavra caridade pode, desde o sculo XII, designar uma refeio leve oferecida aos viajantes em um mosteiro (ROUSSEL, 2011, p.381). Nos mesmos termos, portanto, possvel aproximar caridade e misericrdia como imaginrios associados comensalidade religiosa, o que ser retomado adiante, e esta ltima como imaginrio fundante das comemoraes do Divino Esprito Santo.

Retomando Roussel (2011, p. 381), este afirma que no perodo medieval, quando se consagra o desenho da festa em estudo, a importncia da caridade se manifesta em especial na acolhida aos pobres. Aqueles que vocs chamam de pobres e mendigos, eu os proclamo senhores e auxiliares, porque so eles que podero verdadeiramente nos auxiliar e nos dar o reino do cu, declara So Joo [...]. A doutrina catlica colocar a caridade como uma das sete virtudes[6] a serem seguidas pelos fiis. Associada caridade est a ddiva (do latim donum), no seu sentido de oferenda aos deuses. Na tradio crist supe desprendimento, em identificao extrema com o esprito de caridade (PERROT, 2011, p. 613).

Misericrdia, por sua vez, seria uma aproximao entre miser [misria] e cor [corao], no sentido de compaixo.

 

Misericrdia uma traduo frequente da palavra hebraica rahhamm e da grega leos (verbo: eleo). Um exame destes termos e do seu uso ajuda a trazer a lume seu pleno sabor e significado. O verbo hebraico rahhm  definido como significando inflamar-se, acalorar-se com terna emoo; [...] ser compassivo. [...] segundo o lexicgrafo Gesenius: A ideia primria parece ser a de acalentar, acalmar, e de suave emoo mental. [...]. O termo aparentado de perto com a palavra para madre (ventre) ou pode referir-se s entranhas, que ficam afetadas quando se sente cordial e terna comiserao ou compaixo.[7]

 

Assim, no corpo fsico, corao, ventre e entranhas esto semanticamente implcitos na palavra misericrdia, permitindo aproximaes tambm aos primrdios pagos (e mais atvicos) das Festas do Divino, relacionadas com as celebraes da Idade Mdia realizadas em agradecimento terra e colheita, elementos que, de certa forma, influenciam suas mais variadas reformulaes ao redor do mundo, independentemente do sentido ora recriado (ANGELO, 2017, p. 424), momento em que a comida seria farta e consumida em ambiente festivo graas a generosidade do ventre da terra.

No plano espiritual, a raiz hebraico-grega da palavra misericrdia reportando a ternura, compassividade e acalanto, aproxima-se do que Angelo (2017, p. 424) tambm aponta em razes mais remotas na Festa do Divino na prtica do bodo aos pobres [que] se deu entre 936 e 1218, na dinastia dos Ottons, ou seja, nos Estados Alemes, praticadas para lanar fundamentos de uma instituio que, maneira de um banco, formado de esmolas, acudisse aos pobres nos anos de penria. E, como os invocantes eram reis, os festejos conservaram aspectos de realeza (Idem, p. 425).

Assim como a questo da fome, que permeia a organizao de comemoraes dos ciclos agrcolas, era a busca pelo alimento o princpio dos festivais na antiguidade. Partia-se da sequncia das estaes do ano para fomentar os festivais, que foram, no curso da histria, sendo modificados, com a incorporao de outros elementos e intenes. O cerne dos festejos, contudo, sempre o mesmo: a comida e a fartura do alimento. Entre os festivais judaicos um dos principais era o da colheita que se realizava cinquenta dias depois da Pscoa judaica, correspondendo ao nosso Pentecostes. Enquanto na religio crist comemora-se a descida do Esprito Santo sobre os Apstolos, os hebreus comemoravam a colheita no dia santo que a tradio atribua ser o dia da chegada dos Dez Mandamentos (ANGELO, 2017, p. 425).

 

Como colocado, ao longo da Idade Mdia a Festa do Esprito Santo cristianizada.

Ms de Maria procurava substituir as festas de Afrodite, durante as quais os portugueses penduravam giestas porta para comemorar a fartura e o culto do reflorescimento da terra. As festas do Divino, propositadamente comemoradas em maio, tentavam, desde D. Joo I, em 1385, evitar o paganismo das Maias, cantadas e danadas pelas ruas (ANGELO, 2017, p. 426).

 

Na transposio do paganismo para o cristianismo, a festa agora, reformulada, mantem seu carter de fartura e encenao: Os festivais trazem a mesma tnica em todas as civilizaes, mudando certas caractersticas segundo os costumes de cada lugar. No entanto, o alimento se encontra no cerne das festas de todos os povos enquanto elemento folclorizado e das tradies profanas (Idem, p.427). Miranda (2016, p.4) traz um esclarecimento importante, para entendimento do que segue:

[...] o Culto ao Esprito Santo remonta Idade Mdia, sendo que atribui-se a origem lusa do culto ao monge circense Joaquim de Fiori (1135 - 1203), que pregava o tempo novo do Esprito Santo, tempo este que traria amor, paz, esperana e caridade. A este monge, ainda se atribui a fundao da ordem franciscana. Entretanto, essa prtica religiosa no foi bem aceita pela igreja oficial, que era ao mesmo tempo, acumuladora de bens e fechada. Desta forma, muitos adeptos do culto ao Divino Esprito Santo nesse perodo tiveram como punio pelas heresias acometidas por eles a morte na fogueira [...].

 

As verses mais populares e divulgadas sobre as origens da Festa do Divino Esprito Santo, entretanto, associam-na Rainha Isabel de Arago, casada com D. Diniz. A rainha fundou os hospitais de Rocamador e Torres Vedras (1310), dos Meninos de Santarem (1321) e o Hospital do Divino Esprito Santo (1320), em Alenquer. Ressalte-se, D. Diniz havia criado a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, reza a tradio, atendendo pedido da esposa, cuja funo seria a de enterrar os mortos, cuidar dos doentes e dos pobres e assistir aos condenados, entre outros (IVAMOTO e al, 2017). So aes como estas que levam a canonizao da rainha em 1625, passando a ser reconhecida como Santa Isabel.[8]

A Irmandade de Nossa Senhora da Piedade teria originado a criao das

[...] Irmandades da Misericrdia [e, por analogia, das Santas Casas de Misericrdia que], como a maioria das instituies portuguesas, tinham um forte contedo religioso e funes espirituais alm dos corpreos. Eles foram formados por membros voluntrios da comunidade local, e seus conselhos administrativos foram liderados por altos funcionrios da administrao pblica, profissionais de prestgio ou cidados ricos, sendo independentes das autoridades civis ou eclesisticas. Com o passar dos sculos, perderam suas funes espirituais e, particularmente no Brasil, se dedicaram quase que inteiramente assistncia mdica e hospitalar, alm de outros servios de natureza social (IVAMOTO e al, 2017, s.p, traduo das autoras).

 

A pgina on line Portal do Divino[9] traz outra informao importante, quando registra a origem das comemoraes em Alenquer, Portugal, que a fundao da igreja do Esprito Santo dessa localidade que presumivelmente se verificou no primeiro quartel do sc. XIII, se alude festividade do Imprio, o que leva a supor a sua concretizao a anteriormente a 1280, promovida ou inspirada por franciscanos de tendncia espiritual, anterior, portanto, a criao do Hospital pela Rainha Isabel, que s se casou com D. Diniz em 1282. A abordagem franciscana evangelizao dos povos e as profecias de Frei Joaquim de Fiore, anunciando a nova vinda do Esprito Santo e o advento da Era do Esprito, em que todos os cristos viveriam em paz e liberdade, diretamente inspirados por Deus e sem leis ou qualquer hierarquia, influenciaram profundamente toda aco religiosa e social de Isabel (GENTES DA DIASPORA) [10].

A Rainha, intervindo em uma festa que j existiria espontaneamente na comunidade, e que seguia em procisso pelas ruas de Alenquer, teria convocado

[...] no dia de Pentecostes do ano de 1296, o clero, a nobreza e o povo, para tomarem parte das solenidades religiosas realizadas na inaugurao de uma confraria, a que chamaram de Imprio. Todas as cerimnias realizadas nesse dia deveriam ser impressionantes. Desse modo, de todos os pobres assistentes aos ofcios religiosos, realizados na capela real, convidou-se o mais pobre para ocupar o dossel da capela-mor, o lugar do rei, o qual lhe serviu de corteso e os mais altos dignitrios do rei lhe serviram de pajens. O pobre, ento, ajoelhou-se sobre o rico almofado destinado ao rei e, nessa postura, o bispo do pao lhe colocou sobre a cabea a coroa real, enquanto, entoava o hino Veni Creator Spiritus. Assim investido das insgnias reais, o pobre assistiu celebrao da missa. Em seguida, o pobre se dirigiu ao pao real, onde lhe foi oferecido um lauto jantar, servido pela rainha (PORTAL DO DIVINO).

 

Feita a coroao, o Imprio, agora imprio do esprito, estava institudo e, em tempos subsequentes, crianas passaram a ser coroadas como rei e rainha, em nome da inocncia infantil. Seguia-se uma tourada e a carne era distribuda pelos pobres, e depois o banquete ou bodo, onde abundava para todos, o po, bolo, carne e vinho (GENTES DA DISPORA). O portal portugus ainda registra que entre os pobres e desvalidos protegidos pela rainha estariam os Judeus Sefarditas[11], frequentemente perseguidos na Pennsula Ibrica, usando sua influncia para tal. Angelo (2017, p. 425) registra que, entre os festivais judaicos um dos principais era o da colheita que se realizava cinquenta dias depois da Pscoa judaica, correspondendo ao nosso Pentecostes. A mesma autora ainda acrescenta, o que talvez ajude na compreenso da proteo da Rainha aos judeus: Enquanto na religio crist comemora-se a descida do Esprito Santo sobre os Apstolos, os hebreus comemoravam a colheita no dia santo que a tradio atribua ser o dia da chegada dos Dez Mandamentos (Idem).

Miranda (2016, p. 4-5) acrescenta outra importante explicao, para compreenso do real papel da interveno da Rainha, na Festa, talvez em outra anteposio Inquisio:

Foi preciso quase um sculo para que o culto ao Esprito Santo deixasse de ser prtica criminosa com punio de morte na fogueira. E tal prtica s foi aceita quando uma monarca aderiu ao culto. Essa monarca a desempenhar importante papel na difuso da celebrao ao Divino foi a rainha santa Isabel de Arago (1271-1336).

 

A partir da interveno da Rainha Isabel, ento, o desenho da festividade estaria consagrado como elementos a compor reservatrio motor e dele emergindo na forma de imaginrios, caridade e misericrdia. Retomando Silva (2003), ambos emanam do real religioso enquanto prticas, estruturam-se como ideal de cristandade e retornam ao real da festa como elemento propulsor, em especial na forma de comensalidade. Do desenho festivo fazem parte: a teatralizao, na forma da coroao de reis e rainhas por alguns dias, a folia, a Comilana e o Objetivo: Esprito Santo (ANGELO, 2017, p. 427), em entrecruzamentos com <caridade> e <misericrdia>, como imaginrio.

Acerca da morfologia dos festejos populares medievais, percebe-se uma estrutura que, ora contempla as prticas Sagradas, ora contempla as Profanidades, em um sincretismo que, em algumas celebraes tornam-se difcil de dissociar-se o que religioso e o que profano, como propes Mircea Eliade (1992). Logo, na Festa do Divino, exemple gratia, o ritual de se escolher um festeiro/imperador, organizao de cortejos e feiras expositivas so prticas com razes medievais. (MIRANDA 2016, p. 5).

 

O mesmo Miranda acrescenta (2016, p. 4-5):

 

importante salientar que, as prticas religiosas portuguesas assumem, ainda na Idade Mdia, o formato de festa da cultura popular, definida por Bakhtin (2013) como as festas efervescentes como o carnaval. Apesar do culto do Divino ser uma celebrao religiosa e formal existir-se-ia na mesma um aspecto cmico popular e pblico; este consagrado pela tradio, como por exemplo as festas do templo, habitualmente acompanhadas de feiras com seu rico cortejo de festejos pblicos (durante os quais se exibiam gigantes, anes, monstros, e animais sbios) (Idem, 2013, p. 4).

 

Os Franciscanos divulgaram os ideais de De Fiore, em especial nos Aores e nas colnias portuguesas, em muitos casos atravs das festas em homenagem ao Esprito Santo. Nestas festas, o novo tempo de comunho e fraternidade entre as pessoas expresso de maneira simblica, pela fartura de alimentos, vida de solidariedade e alegria manifesta nas cores das bandeiras, fitas, msicas e danas (RIBEIRO, 2017, p. 267).

Estas caractersticas peculiares que marcam o catolicismo popular caipira foram forjadas inicialmente no Portugal ancestral. Tendo o colono portugus vindo de uma terra por diversas vezes tambm ocupada por povos de origem religiosa dispare, comps aos poucos uma religiosidade fortemente arraigada a festas ligadas a fertilidade, a manipulao mgica do sagrado atravs de ex-votos, ladainhas, romarias, novenas e uma crena em uma diversidade de santos, anjos, milagres e de mistrios envolvendo principalmente os sacramentos. assim que, a maior parte dos elementos religiosos que veio a constituir o catolicismo rural ou rstico j fazia parte da religio popular em Portugal e foram trazidos, portanto pelo colonizador que ao emigrar, levava consigo, alm das esperanas em um mundo melhor, as suas crenas religiosas (RIBEIRO, 2017, 259).

 

No Brasil, ainda segundo Ribeiro, a Festa manteve como marcas a bandeira vermelha, representando o batismo de fogo pelo Esprito Santo, a pomba branca, como o prprio Esprito, as fitas coloridas, a inverso social, mas, especialmente, a distribuio generosa de alimentos, a serem compartilhados por fieis e seus convidados.

 

3 COMENSALIDADE

Comer atende a uma necessidade fisiolgica. Quando superado o fisiolgico e o comer se torna um ato social e, portanto, permeado por simbolismos, adentra-se o mbito da comensalidade. Esta envolveria princpios associados ao o que e o como [com quem] comer, assim como ao quando e onde comer, conforme esquematizado na Figura 1. O que comer supe os ingredientes, sua obteno e preparo, ambos com maior ou menor complexidade, conforme o contexto social, cultural ou religioso assim o determinar ou, no caso das comidas tradicionais, como o ecossistema natural e agrcola disponibilizarem comunidade. Em termos de comensalidade, ou seja, do comer junto, o com quem implicaria necessariamente a referncia a partilha grupal, nos modos de servir e degustar, estes tambm perpassando fazeres, rituais e simbolismos.

Figura1: Princpios componentes da comensalidade.

Fonte: As Autoras.

Nos princpios da comensalidade, o onde refere a que a mesma possa se dar tanto no privado (domstico ou institucional) ou na esfera pblica (institucional ou comercial), em reunies familiares, sociais, profissionais ou religiosas, entre outras. Por fim, o quando pode demarcar tempos rotineiros, mais uma vez lembrando as refeies familiares, como exemplo, ou tempos no rotineiros, tanto no mbito do sagrado (atos litrgicos) como do profano, em festas sociais, cvicas, tnicas, entre outras. Em outras palavras, o fisiolgico supe comer sozinho, em pblico ou privado, de modo rotineiro, embora possa haver momentos no rotineiros e com ritualizaes implcitas tanto na escolha de ingredientes como no seu preparo e no seu consumo. A comensalidade, por sua vez, envolveria o comer junto, em pblico ou privado, rotineira ou excepcionalmente. Se no rotineiramente, estes momentos podem estar associados ao sagrado ou ao profano e festa, com especificidade de fazeres e rituais em termos de ingredientes, preparo, apresentao e consumo.

J na sua etimologia, a palavra comensalidade deriva do latim mensa, que significa conviver mesa e isto envolve no somente o padro alimentar ou o que se come mas, principalmente, como se come (MOREIRA, 2010, s.p.), sendo, portanto, social e historicamente construda. No mbito da comensalidade, a relao humana com o alimento permeia o espiritual, a tradio e a cultura, influenciando-as em termos de o que comer, quando e como o fazer, como preparar e como servir o alimento, contribuindo para desenvolver o que Maffesoli (2001) trata como reservatrio motor, em que se organizam os imaginrios, como resultado das diversas informaes, experincias e percepes ali acumuladas.

Em outros termos simblicos, Fernandes (1997) busca construir uma morfologia, em que destaca que a comensalidade apresentaria algumas marcas recorrente: aparece frequentemente como expresso de poder e diferencial de classe; a mesa local de permutas sociais, tanto de companheirismo como de traies; haveria uma relao entre mesa, corpo e beleza, mesmo considerando-se que as concepes da esttica so uma funo geral da mentalidade de cada poca (p.14); as religies histricas transpem o cerimonial da mesa para a ritualizao sagrada; a comensalidade atual revelaria quebra da sociabilidade e deixaria a esfera ntima para a esfera social.

Na mesma linha de teorizao, Soares e Camargo (2015) falam em duas dimenses da comensalidade: no eixo horizontal, sua fora de agregao e de coeso; no eixo vertical, as hierarquias dos lugares e dos papis. Na correlao com as religies, apresenta-se o alimento no mbito do sagrado e, em alguns casos, associado caridade e misericrdia. No caso, o alimento pode se dar como memria viva, resgatando experincias e construindo identificao com um contexto coletivo, memria como lugar de persistncia, de continuidade, de capacidade de viver o insistente (TEDESCO; ROSSETO, 2007, p. 36). Hbitos e prticas alimentares, por agregadores, contribuem para laos sociais fortalecidos, podendo sedimentar pertenas ao grupo, ao outorgar uma identidade, reafirmada pela memria gustativa (SANTOS, 2005, p. 5), que poder, ainda, vir associada a razes tnicas, de nacionalidade ou religiosas.

Assim, o simbolismo do alimento atrela-se integrao e socializao das pessoas, da reunio familiar memria social e coletiva. Considere-se que o significado desses contedos no interpretado pelas culturas que o praticam, mas sim cumprido como um preceito inquestionvel, para o qual no so necessrias explicaes (CARNEIRO, 2005, p.72). A escolha e consumo dos alimentos podem significar tanto hbitos e costumes herdados, como a concretizao de imaginrios.

Nesses termos, a presente reflexo prev retomar o percurso de sentido da comensalidade nas Festas do Divino Esprito Santo, como tendo matrizes significantes na caridade e na misericrdia, constitudas no cenrio cultural e ideolgico medieval. Se na sua origem pag, a festa celebrava a colheita e o momento de fartura, em comunidades em que o alimento seria escasso, atravs do compartilhamento comum da comida. Na transposio medieval, induz-se a aproximao (simblica) entre ricos e pobres, estes agora alimentados por um ato de boa vontade [caridade], estimulado pela prtica religiosa [misericrdia], daqueles.

Considerando a figura anterior, a Figura 2 coloca em destaque, no cenrio terico at aqui descrito, em que a comensalidade, para alm do comer juntos, dever considerar: o modo de obteno dos insumos para preparo dos alimentos; os modos de preparo; os modos de servir; e os de consumo; todos em termos de prticas e de rituais associados. Estes momentos so retomados a seguir, para analisar a comensalidade nas comemoraes associadas ao Divino Esprito Santo, em Alcntara, no Maranho, onde a comensalidade se d como marca de hospitalidade.

Figura 2: Princpios da comensalidade aplicados a Festa do Divino Esprito Santo

Fonte: As Autoras

 

4 A FESTA DO DIVINO ESPRITO SANTO

Comemorado em muitos estados brasileiros, a festa adquire contornos prprios no Maranho, e, em especial, em Alcntara, seguindo as lgicas do catolicismo popular. As primeiras Festas do Divino, nesse Estado, reportam ao sculo XIX, e so descritas por Lacroix (2012, p. 222) como festa africana associada ao culto catlico, [que] reunia os participantes na beira de uma estrada ou num terreiro, com bandeirinhas de papel colorido, uma grande bandeira vermelha com a pomba simblica do Divino Esprito Santo.

Desfilava pelas ruas, em tom festivo, o Imperador, a Imperatriz vestidos a carter, um pagem [sic] carregando uma coroa numa salva e vrios personagens at uma igreja para participarem de uma missa dominical do ms de maio. Desde os preparativos da festa at seu desmonte, voluntrios ajudavam na cozinha, geralmente nos fundos da casa da festa ou nos baixos dos sobrados, preparando almoos e jantares com boi, capado, capes, galinhas, patos, bolo de macaxeira, bolo de tapioca, po de l, doces de espcie com figuras de animais ou coraes, cardpios fartos ou modestos, conforme a ajuda de governantes e do comrcio, em geral. [...] em outros pontos da cidade, noite, protegidas pelas sombras da fraca iluminao das fumegantes lanternas de leo de peixe, se juntavam, na maioria, negras e mulatas para certos excessos e cantorias, as modas da terra, modinhas e lundus (Idem).

 

Na atualidade, os preparativos iniciam no ms de maio[12]. O rito primeiro d-se no Sbado de Aleluia, momento em que os festeiros anunciam o dia em que o Imperador ou a Imperatriz recepcionaro os convidados com grande festa, em que servido almoo com mesa farta de doces, e para a qual todos, comunidade e visitantes, so convidados, sem que implique qualquer retribuio financeira.

Outro momento importante acontece no Domingo de Pentecostes, quando os devotos elevam a Bandeira, em cortejo de exaltao ao poder do Imperador como agente de Deus na Terra. O Cortejo do Imprio segue entre bailados, ladainhas e queima de fogos, projeta alegria e realiza farta distribuio de comida e bebida, realiza o esmolar em favor ao Divino, para o recolhimento de donativos que garantiro os insumos necessrios a montagem da comemorao, em especial, dos alimentos destinados s comensalidades, nos banquetes. (MOURA, 2005, p. 44). No domingo praxe a missa solene e visitas do Mordomo s casas dos festeiros. Uma semana de ladainhas precede o dia da Subida do Boi[13].

No segundo sbado, h o momento da distribuio de esmolas aos idosos. No ltimo domingo, celebra-se missa solene, seguida do cortejo de retorno Casa do Divino, depois procisso com a Coroa do Divino e retorno igreja para leitura do Pelouro[14], em que constam os nomes dos novos participantes, para o ano vindouro. Na ltima segunda-feira, faz-se entrega do posto de festeiro aos novos ingressantes. Em diferentes momentos da Festa, as Caixeiras so destaque pela singularidade com que fazem soar os tambores, com toques pessoais, ditos pitorescos, que diferem daqueles de outros lugares. Em todos estes momentos os alimentos esto presentes para entreter os convidados, ou para impression-los, na sua generosa distribuio.

A organizao da Festa de responsabilidade do grupo de festeiros e da Corte do Imprio. A obteno dos insumos necessrios preparao dos alimentos se d atravs de doao e mendicncia. Para promover a doao, h dois momentos, o almoo na Casa do Imperador e, outro, na casa do Mordomo, cerca de trinta dias antes do incio da comemorao, mais propriamente, reunindo convidados especiais. Outra forma de arrecadao de fundos so as visitas do cortejo, para beno, de casa em casa e a espaos do poder pblico, como a Cmara de Vereadores e a Prefeitura, buscando angariar donativos. Pessoas que por algum motivo no possam participar da Festa nos dias oficiais - membros de asilos ou creches tambm recebero a visita e beno especial do Divino Esprito Santo, desfrutando do privilgio de conviver com a famlia que compe o cortejo do Imprio.

Obtidos os insumos e recursos financeiros necessrios, o preparo das comidas realizado de forma coletiva. Inicia-se pela feitura de licores e doces de espcie, nos dias anteriores ao incio da Festa. Depois, as cozinheiras passam vrias noites na cozinha preparando os pratos a serem servidos aos personagens centrais da festa como o imprio e caixeiras, bem como a todos os participantes, uma vez que a fartura e a comensalidade so preponderantes na dinmica do festejo (FIGUEIREDO, 2006, p. 3). No registro de Lacroix (2012, p. 222), em tempos anteriores a participao da comunidade j era intensa, desde a montagem da festa at seu desmonte, a comensalidade incluindo boi, capado, capes, galinhas, patos, bolo de macaxeira, bolo de tapioca, po de l, doces de espcie com figuras de animais ou coraes, cardpios fartos ou modestos, conforme a ajuda de governantes e do comrcio, em geral.

Compreende-se, na atualidade, o ato de preparar o alimento festivo como manifestaes de devoo e da retribuio s graas concedidas pelo Divino, em especial, o ato de partilhar [...] a fartura um aspecto marcante da festa, sendo comum avistar os devotos se fartando (VILLANOVA; PELEGRINI, 2011, p.4), implcitos a caridade e a misericrdia. Durante a festa, parte dos modos de servir, mesas de banquete ficam disposio dos festeiros, brincantes, fiis e moradores, em vrios pontos da cidade, entre eles a Casa do Divino. Os variados pratos servidos tm em comum as mesas de doces no incio e final dos festejos. H bolos, doces de espcie, licores e outras guloseimas da tradio local, ofertados para quantos ali estejam, podendo chegar a 25 mil o nmero de pratos de comida servidos, nas maiores festas.

Associado aos modos de consumir, os convidados amontoam-se em torno das mesas, mas h certa hierarquia, na sua composio: os festeiros almoam com padre em um local privilegiado da casa da festa. A figura dos reis da celebrao colocada em destaque, afinal so considerados os mentores de toda festividade naquele ano (VILLANOVA; PELEGRINI, 2011, p. 5). Em todos os momentos, na comensalidade a ponte para a hospitalidade.

 

5 HOPITALIDADE

Abordar a comensalidade sob os vieses apresentados at aqui, aproxima-a da hospitalidade, considerando-a como forma de receber e de tratar com a alteridade. Como colocado por Soares e Camargo (2015, p. 193):

 

Pode-se separar o prazer do alimento do prazer da companhia que se tem para o alimento, do prazer da conversao jogada fora [ batons rompus] que, para Kant (2006), o exerccio mais nobre do ser-estar humanos [...]. Neste caso, a comensalidade pode ser entendida como um tempo e um espao da hospitalidade humana: O comensal assume, antes de tudo, a figura do hspede. Ele se identifica, desse modo sob o termo genrico de convidado (isotomia da recepo) ou, de maneira mais especfica, de conviva (isotopia da refeio) porque a noo de comensalidade condensa os traos da hospitalidade e os da mesa. (Boutaud, 2011, p. 1213). Mais: a comensalidade traz embutidas duas dimenses da noo de hospitalidade humana, uma horizontal e outra vertical.

 

Em termos da hospitalidade religiosa, Godi (2011, p. 613) explica que na igreja primitiva, o receber organizava-se em torno do bispo. O espao fsico da casa de misericrdia era mltiplo, ao reunir local de culto e de acolhimento no mesmo complexo arquitetnico. No sculo IX, Esmoler, um monge experiente, quem passa a cuidar dos necessitados porta do mosteiro. nessa dimenso religiosa, de ir a favor do outro, que se institui a hospitalidade como decorrncia do acolhimento, da partilha, da benevolncia. O lava-ps estava incurso na gentileza, assim como a refeio compartilhada e dinheiro que eram providenciados aos pobres pela condescendncia dos mosteiros, a fim de inscrever no cotidiano de cada monge o dever da caridade. Nas grandes cidades, as casas de Deus estabelecidas perto das catedrais e dos palcios episcopais acolhe os indigentes e os enfermos. (CARR, 2011, p. 576).

Quando aumentou consideravelmente a presena de peregrinos em direo a Roma, Jerusalm e Santiago de Compostela, alm dos hospitais junto s casas episcopais e mosteiros, registra-se a presena dos asilos hospitalares, na entrada das cidades, ao longo dos caminhos, espcies de novos xerodochia que tomaro o nome da santas casas e acabaro por acolher tambm doentes (GODI, 2011, p. 612). O sculo XII registra o nascimento das ordens religiosas especializadas no exerccio da caridade e da hospitalidade (Idem, grifo nosso), os monges medievais, em nome da misericrdia, desempenhando papel preponderante no auxlio a esses necessitados. Os mosteiros transformam-se em espao de acolhimento. Junto ao claustro havia, de um lado, a hospedaria dos nobres, e de outro, a hospedaria dos pobres, peregrinos e monges que houvessem abandonado todos os seus bens. Por esta razo, alm de acolhidos deveriam ser alimentados.

"Na Inglaterra do sculo XVI, os monges que inicialmente davam o exemplo de hospitalidade, acolhendo pessoas estranhas sem discriminao, encarregaram capeles de organizar essa hospitalidade" (CANTO-SPERBER, 2003, p. 753), levando a que as relaes entre monges e pobres fossem cada vez mais distantes, medida que as casas para tratamento de sade se institucionalizavam. Na atualidade, h a expresso de outra forma de hospitalidade, no mais social, desta vez, mas espiritual e mstica (GODI, 2011, p. 613), que se insere como caridade e misericrdia.

Contextualizando a hospitalidade no ambiente da Festa do Divino Esprito Santo, h um acolhimento natural e progressivo entre visitantes e festeiros, decorrncia do exerccio da caridade e da misericrdia pela comunidade, o que leva a viabilizar a festa. O modo de faz-lo, a gratuidade da comida, a manifestao e as peculiaridades na comensalidade ofertada ao Divino, aproximam os visitantes dos visitados em trocas como o descrito por Santos e Perazzolo (2012, p. 4):

No cerne da proximidade entre acolhimento e turismo esto as experincias vividas pelos sujeitos primariamente acolhidos e primariamente acolhedores, tendo como suposto que as experincias so processos que traam as marcas da memria; que fazem convergir a formao das representaes para a culminncia afetiva geradora das snteses mentais de prazer ou desprazer; e que, no conjunto, viabilizam a transformao humana. Portanto, o turista, o sujeito na condio primria de acolhimento, se sentir to mais acolhido quanto mais intensas forem suas experincias de prazer e de aprendizagem, desencadeadoras das mudanas vivenciadas e testemunhadas pela memria. Da mesma forma, o sujeito na condio primria de acolhedor tambm poder experienciar prazer e aprendizagens promotoras de mudanas, como efeito inevitvel das trocas relacionais.

 

Integrar o visitante compromisso do acolhimento, sendo que a grande marca da hospitalidade, para Camargo (2004), est no receber e aceitar bem ao outro, assim como o outro deve aceitar a ddiva do acolhimento, pois a recusa pode ser encarada como ofensa. Na mesma medida, quem recebido deve devolver a gentileza, em agradecimento, numa troca mtua que poder prover crescimento e alargamento das relaes, humanizando-as.

Retornando por onde comeamos, ou seja, percorrendo concepes etimolgicas, o dicionrio define hospitaleira como a irm de caridade que trata gratuitamente de doentes, em obedincia aos regulamentos de sua comunidade, enquanto que hospitaleiro significaria aquele que oferece hospedagem por bondade ou caridade, que acolhe francamente, que agasalha (HOUAISS; VILLAR; FRANCO, 2001, p.1553). No mesmo dicionrio, hospitalidade seria o ato de hospedar; acolhida de hspedes; qualidade do que hospitaleiro; recepo ou tratamento afvel, corts; amabilidade e gentileza (Idem).

A hospitalidade no apenas um processo pelo qual estranhos so transformados em amigos, mas tambm, mais ainda, a qualidade pela qual ideias pouco familiares podem atravessar as fronteiras das ideias aceitas. Descobre-se a importncia da hospitalidade no estudando-a como um costume social ou como expresso de um temperamento, mas sim considerando-a como um elemento essencial da eficcia intelectual e da plenitude moral (CANTO-SPERBER, 2003, p. 752).

 

Canto-Sperber (2003) ainda acrescenta que a hospitalidade era, na origem, tambm uma soluo de alcance universal para os menos favorecidos socialmente, providenciando autonomia para alm dos direitos institudos no nascimento.

 

6        CONSIDERAES FINAIS

Como proposto inicialmente, procurou-se demonstrar que o imaginrio da comensalidade, eixo condutor das comemoraes associadas Festa do Divino Esprito Santo, alimenta-se da caridade e da misericrdia.

Nos interstcios da hospitalidade com a Festa do Divino Esprito Santo, fundamental registrar que esta comemorao se faz presente desde sua constituio histrica, na Idade Mdia, e que acompanhou a expanso portuguesa para as Amricas no sculo XVI e seguintes. Nesta condio, a Festa do Divino assumia, atravs da misericrdia e da caridade, importante papel no acolhimento entre colonizador e colonizado, como mediadora da apropriao dos novos espaos coloniais. Para tanto, hibridizando-se tradies indgenas e africanos s europeias, na construo do imaginrio que as comemoraes do Divino consagraro.

Antes, como agora, uma das principais marcas da Festa do Divino Espirito Santo est na gratuidade e fartura dos alimentos ofertados aos visitantes, a comensalidade colocando-se como forma de dizer seja bem-vindo e congratule conosco, em nome do Divino Esprito Santo. Nas pesquisas sobre a Festa do Divino Espirito Santo percebeu-se que, independentemente do lugar onde a comemorao se d, a caridade e a misericrdia imiscuem-se com a comensalidade, e que esta se d como forma de hospitalidade. A caridade e a misericrdia atualizam-se no dar, receber, retribuir, palavras reiteradamente presentes quando se busca entender os princpios da hospitalidade, nas teorizaes contemporneas.

 

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Artigo recebido em: 10/06/2018

Avaliado em: 14/06/2018

Aprovado em: 20/06/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]Doutora. Professora e pesquisadora no Programa de Ps-Graduao em Turismo e Hospitalidade (Mestrado e Doutorado), Universidade de Caxias do Sul. Bolsista Produtividade CNPq. Currculo:  http://lattes.cnpq.br/0363951380330385. Orcid: http://orcid.org/0000-0001-5706-9672. E-mail: susanagastal@gmail.com

[2]Doutoranda no Programa de Ps-Graduao em Turismo e Hospitalidade, Universidade de Caxias do Sul. Professora do Instituto Federal de Educao, Cincia e Tecnologia do Maranho (Campus Centro Histrico). Currculo:  http://lattes.cnpq.br/7533752263663370 E-mail: crismesquita@ifma.edu.br

[3]Cidade Histrica e Monumento Nacional, pelo Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional [IPHAN], em 22 de dezembro de 1948.

[4]Adulto responsvel pela orientao dos festeiros e cumprimento das obrigaes. Em Alcntara, as escolhas do Imprio so feitas e anunciadas pelo Mestre-Sala, que denominado Mestre-Sala-Mor.

[5]Utiliza-se KOEHLER S.J., Pe H. Dicionrio Escolar Latino-Portugues. Porto Alegre: Globo, s.d.

[6] As sete virtudes incluem: F, Esperana, Caridade, Sabedoria, Fortaleza, Temperana e Justia (CREVELIN, 2017).

[8] A triangulao entre Joaquim de Fiore, os Franciscanos e a Rainha D. Isabel, no contexto da Festa do Divino Espirito Santo, sero tratas pelas autoras em outro momento.

[9]Disponvel em http://www.portaldodivino.com/origem/origemdafesta.htm, acesso em 12 OUT 2017.

[11] Sabe-se que desde sua chegada a 700 anos antes de Yeshua vir ao mundo at sua converso forada por decreto real em 1496 e exitosa sob o espanto luminoso das chamas da maldita inquisio, a mais abominvel, criminosa e imunda das aes da Igreja Catlica os judeus viveram e cresceram na comunidade ibrica. So 2 mil anos de coexistncia nos quais a marca da presena judaica foi impressa na cultura, na lngua e mesmo nos costumes portugueses. No sem causa que chamamos azeitona ao fruto da oliveira, chuva o regresso das guas, lavagem a limpeza das nossas roupas e ao ao produto de nossos atos. Isso fica claro quando descobrimos que oliveira em hebraico hazeit, que regresso shuv, que branco lavan e que hazia ao. O que vamos vera agora evidncia de que as marcas da presena judaica na Espanha e em Portugal so muito mais profundas do que a mera linguagem que em parte tambm derivamos dos rabes, ela se inscreve profundamente nos nossos nomes, no nosso sangue, no nosso DNA (COMUNIDADE DE ISRAEL, s.d.).

[12] Lima (2014, p.96), que estudou festas religiosas em Gois, explica que os meses de maio e junho o perodo de celebrar a colheita e sua abundncia, com a grande festa da fartura, que a do Divino Esprito Santo [...].

[13] Trata-se de cortejo pelas ruas da cidade, parte do ritual de morte e esquartejamento do boi que ser servido como alimento durante a festa; a sequncia do ritual definida pelos cnticos das Caixeiras.

[14]Documento que anuncia os festeiros do ano seguinte.



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REVISTA HOSPITALIDADE ISSN 1807-975X    e-ISSN 2179-9164

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