Revista Hospitalidade, Ano V, nmero 2, segundo semestre de 2008

Potencialidades para o turismo rural acessvel: um LEVANTAMENTO na regio de Planaltina - Distrito Federal

 

POTENTIALITIES FOR RURAL ACCESSIBLE TOURISM: A SURVEY IN THE REGION OF PLANALTINA - FEDERAL DISTRICT

 

POTENCIALIDADES PARA EL TURISMO RURAL ACCESIBLE: UN LEVANTAMIENTO EN LA REGIN DE PLANALTINA - DISTRITO FEDERAL

 

Donria Coelho Duarte[1]

Gleiton Alves de Oliveira[2]

 

Resumo: Este trabalho tem como objetivo discutir o turismo rural na regio de Planaltina DF, tendo como foco de anlise a acessibilidade nos principais locais voltados a este segmento. Para tanto, optou-se primeiramente por uma pesquisa bibliogrfica a respeito das peculiaridades do turismo rural e o turismo acessvel. c semiestruturado. Ao todo foram entrevistados 2 clubes, 2 hotis, 2 pesque e pagues, 5 restaurantes e 2 pousadas, totalizando 13 estabelecimentos rurais, que foram analisados na sua totalidade de forma qualitativa. A pesquisa apontou que os estabelecimentos investigados apresentam alguns itens voltados para a acessibilidade como rampas, estacionamento, portas e corredores mais largos, sobremaneira voltados para limitao motora e carecem de estrutura voltada para os outros tipos de limitaes. As entrevistas e observaes feitas nesses estabelecimentos revelaram os problemas, as dificuldades e os desafios que a regio de Planaltina DF enfrenta para o desenvolvimento de um turismo rural acessvel. Dentre esses, citam-se a falta de informao a respeito das adaptaes necessrias, a inexistncia de orientao, alm da falta de conscientizao a respeito do tema.

Palavras Chaves: Turismo rural; acessibilidade; hospitalidade; deficincia; Distrito Federal.

 

Abstract: This study has as objective to discuss rural tourism in the region of Planaltina DF, focusing on accessibility in the main sites focused on this segment. For this, it was made first a bibliographical research about the peculiarities of rural tourism and accessible tourism. In the data collection, a script of a semi structured interview was used. In all, 2 clubs, 2 hotels, 2 fish and pay, 5 restaurants and 2 inns were analyzed, totaling 13 rural establishments, which were analyzed in their entirety qualitatively. The research pointed out that the establishments investigated have some items aimed at accessibility such as ramps, parking, doors and wider corridors, especially aimed at motor limitation and lack structure aimed at other types of limitations. The interviews and observations made at these establishments revealed the problems, difficulties and challenges facing the Planaltina DF region for the development of rural accessible tourism. These include a lack of information about necessary adaptations, the lack of guidelines, and the lack of awareness about the issue.

Keywords: Rural tourism; accessibility; hospitality; disability; Federal District.

 

Resumen: Este trabajo tiene como objetivo discutir el turismo rural en la regin de Planaltina DF, teniendo como foco de anlisis la accesibilidad en los principales locales de este segmento. Para ello, se opt primero por una investigacin bibliogrfica acerca de las peculiaridades del turismo rural y el turismo accesible. En la recoleccin de datos se utiliz la forma de un guin de entrevista semiestructurado. En total fueron entrevistados 2 clubes, 2 hoteles, 2 pesque y pagues, 5 restaurantes y 2 posadas, totalizando 13 establecimientos rurales, que fueron analizados en su totalidad de forma cualitativa. La investigacin apunt que los establecimientos investigados presentan algunos tems dirigidos a la accesibilidad como rampas, estacionamiento, puertas y corredores ms anchos, sobre todo orientados hacia limitacin motora y carecen de estructura dirigida a los otros tipos de limitaciones. Las entrevistas y observaciones realizadas en esos establecimientos revelaron los problemas, las dificultades y los desafos que la regin de Planaltina DF enfrenta para el desarrollo de un turismo rural accesible. Entre ellos, se citan la falta de informacin acerca de las adaptaciones necesarias, la inexistencia de orientacin, adems de la falta de concientizacin al respecto.

 

Palabras Claves: Turismo rural, accesibilidad, hospitalidad, discapacidad, Distrito Federal.

 

 

  1. Introduo

O turismo rural uma tendncia crescente no mercado atual tendo em vista os seus benefcios e peculiaridades. O comportamento do consumidor desse segmento vem mudando e, com isso, surgem novas motivaes de viagens e expectativas que precisam ser atendidas. Em um mundo globalizado, onde se diferenciar adquire importncia a cada dia, os turistas exigem, cada vez mais, roteiros tursticos que se adaptem s suas necessidades, sua situao pessoal, seus desejos e preferncias (MINISTRIO DO TURISMO, 2010). Tal tendncia est estritamente conectada as atraes oferecidas por esta atividade. H uma dependncia entre o papel desempenhado pelos atrativos tursticos rurais e a qualidade dos servios prestados pelos mesmos perante a sociedade.

Nesse contexto, para abordar a questo da qualidade do atendimento nesses estabelecimentos rurais, importante destacar a questo da hospitalidade, uma vez que para o sucesso do negcio pressupe-se que haja a preocupao em atender bem e satisfatoriamente o turista, estabelecendo uma relao harmnica de bem estar e satisfao entre o acolhedor e o acolhido.

Sendo assim, destaca-se uma estrita relao com a questo da acessibilidade nos atrativos rurais, no intuito de que todos usufruam das atividades oferecidas, pois em casos de pessoas com deficincias, as dificuldades so permanentes e, muitas vezes, intransponveis, afetando suas condies de independncia e acesso cidadania.

Levando em conta tais argumentos, este artigo tem como objetivo discutir potencialidades para o turismo rural na regio de Planaltina DF, tendo como foco de anlise a acessibilidade para as pessoas com deficincia nos principais locais voltados a este segmento.

2.      A relao do turismo rural e a insero no campo

O turismo rural uma modalidade em desenvolvimento nas regies brasileiras, sendo, portanto um segmento de extrema importncia para o progresso das reas rurais devido ao seu impacto econmico. Em virtude desse avano, procura-se entender neste artigo como se d esta relao do turismo e a rea rural, enfatizando ainda sua relao com as reas urbanas e a acessibilidade.

Para entender a relao do turismo numa perspectiva rural necessrio compreender o que o turismo rural. Segundo o Ministrio do Turismo (2010), a expresso Turismo no Espao Rural se refere a todos os movimentos tursticos ocorridos no espao rural, ao passo que o termo Turismo Rural se restringe s caractersticas prprias do meio rural, paisagem, ao estilo de vida e cultura rural, excluindo-se formas no ligadas prtica e ao contedo rural.

Sobre o turismo rural, Azevedo e Rodrigues (2015, p. 06) destacam que deve-se considerar portanto, atividades que envolvam a agricultura familiar, o artesanato, a pecuria, as diversas formas de saber e fazer do campo como forma de valorizao do homem e de conservao dos recursos naturais e culturais do ambiente rural.

Lunardi, Souza e Perurena (2015, p. 06), afirmam que num primeiro momento, o turismo rural era uma atividade produtiva complementar da receita para as famlias, logo, em muitas propriedades, tornou-se a principal fonte geradora de receita e tambm de mudanas sociais e culturais.

Tambm destacam Lunardi, Souza e Perurena (2015), que em muitas propriedades o trabalho no turismo rural provm basicamente do grupo domstico, entendido como um sistema econmico e social baseado no convvio comum, na mesma residncia. Os autores salientam ainda que turismo uma atividade que exige dos proprietrios dedicao diria, especialmente nos perodos de alta temporada.

Entende-se que esta relao que se d entre o campo e o turismo resultado de um sistema complexo que no se restringe apenas ao ganho financeiro obtido pelo espao turstico. As variveis e peculiaridades que permeiam esse vnculo devem ser analisadas e estudadas, visto que o fator sociocultural, a atrao turstica e o ambiente so aspectos determinantes para o desenvolvimento da atividade.

Um aspecto importante nesse contexto refere-se a hospitalidade, na medida em que qualquer estabelecimento turstico, inclusive aqueles voltados ao turismo rural, devem estar preocupados em bem atender e superar as expectativas do cliente. Este assunto ser discutido a seguir.

 

3.      A hospitalidade no turismo rural

Beni e Moesch (2015) afirmam que o turismo est ligado s culturas, ao ato de receber, sendo assim, est ligado hospitalidade e sua tradio. Convencionalmente, o hspede um viajante que recebe hospitalidade no lar do anfitrio.

A hospitalidade se fundamenta na interao entre pessoas, instituindo uma dinmica de reciprocidade. Beneficia a construo e o revigoramento da sociabilidade por meio da criao, do fortalecimento e do estabelecimento das relaes e vnculos sociais (Boer; Rejowski, 2016). Os autores consideram que, dessa maneira, qualquer pessoa que no est em seu domiclio, pode ser considerada hspede nos lugares onde frequenta e consome servios.

Neste sentido, a hospitalidade tem como seu ponto fundamental a interao entre as pessoas, na qual se institui uma dinmica de reciprocidade. Pode ser considerada como um dos alicerces da constituio dos vnculos sociais, uma vez que abre espaos para uma ao interativa entre indivduos - hspede e anfitrio - e, dessa forma, proporciona momentos de construo de relaes sociais (Boer; Rejowski, 2016).

Complementando, Stefanini, Alves e Marques (2018) consideram que a hospitalidade oriunda das relaes humanas e interpessoais que ocorrem nos ambientes sociais pblicos ou privados. Envolve uma troca entre algum que recebe (anfitrio) e em contrapartida est o recebido (cliente, hspede), onde aquele que recebe troca algo com o que recebido, podendo ser bens tangveis ou intangveis. Os autores consideram que os servios relacionados com hospitalidade deveriam, idealmente, refletir o prazer de conhecer novos clientes e cumprimentar antigos que esto de volta.

Assim, a hospitalidade, a qualidade no servio e a experincia no momento do consumo do produto esto intimamente ligados a satisfao e sua consequncia fidelizao (Stefanini; Alves; Marques, 2018). Para os autores, as caractersticas hospitaleiras proporcionam diferencial competitivo, portanto o estudo e identificao de tais caractersticas contribuem para o desenvolvimento de estratgias visando o atendimento e superao das expectativas dos clientes.

Corroborando, Fernandes, Santos e Rejowski (2017) consideram que receber est intrinsicamente ligado hospitalidade. A recepo de pessoas parece estar na essncia da sociabilidade entre os seres humanos, e quando se trata de turismo, recepcionar indispensvel. Compreende-se que o ato de receber em qualquer um dos eixos da hospitalidade (cultural ou social) engloba hospedar, alimentar e entreter. Entende-se que a interao entre hspede e anfitrio pode acontecer em todos os domnios da hospitalidade, sendo que no domnio comercial, a hospitalidade tem uma relao baseada em troca monetria e busca fidelizar seus clientes.

Nota-se nas abordagens citadas anteriormente que o foco da hospitalidade a fidelizao de clientes e a preocupao em manter os j conquistados, na medida em que conquistar novos clientes pode requer mais esforos do estabelecimento do que manter os clientes j existentes. Ambos, tanto novos quanto clientes j conquistados devem ser o foco da hospitalidade nos servios tursticos.

Relacionando competitividade com hospitalidade, Wada e Goldenberg (2017) consideram que, independentemente da atividade, a prestao de servios um processo em que h interao entre o provedor e o consumidor e nessa interao que a hospitalidade pode estar presente, aumentando a percepo de qualidade do servio prestado pelo consumidor. Empresas que prestam servios para competir no mercado, por se tratar de um setor que representa mais da metade da atividade econmica global, podem ganhar competitividade considerando as relaes presentes tanto na proviso de servios em si, bem como nas relaes existentes com as vrias partes interessadas no processo de prestao de servios.

A hospitalidade pode ser um diferencial no turismo, na medida em que deve priorizar o atendimento com excelncia e enfatizar o bem estar de todos. Entende-se hospitalidade aqui, como sendo uma rea do conhecimento que possibilita seu entendimento em diversas dimenses, mas no geral, est vinculada s relaes estabelecidas entre os indivduos, a ttulo de exemplo, entre o hspede e o anfitrio (ROCHA; PETRY, 2015, p. 20).

Desta forma, entende-se que a hospitalidade revela-se como um sentimento que se estabelece atravs da relao, permite elevar o seu conceito a um estgio de satisfao intrnseca a cada ser humano, o que est relacionado diretamente a sua essncia, atos que expirem prazer e contentamento ao hspede.

A hospitalidade na oferta turstica remete os destinos e atraes tursticas como lugares de hospitalidade, que promovem a comunicao, o contato e a proximidade com o outro, ou entre hspede e anfitrio. Os lugares so retratados como hospitaleiros ao turista com acolhimento e cortesia a este, nos quais h ou haver troca de experincias e pontos de vista, contato com outros turistas e com residentes, em uma viagem a lugares passveis de serem imaginados e experimentados (Fernandes; Santos; Rejowski, 2017).

Santos (2017) que destaca o aspecto intangvel e as relaes mtuas interpessoais, revela que se compreendermos a hospitalidade como gestos de gentileza que tendem a ser recprocos pouco a pouco forma-se uma espcie de corrente do bem. Entretanto se olharmos a hospitalidade, como forma de ganho econmico, como uma ferramenta de trabalho, capaz de potencializar as vendas por meio do bom atendimento e da transparncia nas relaes comerciais, teremos ento um mercado mais justo.

Apoiado nessa concepo de intangibilidade, conforme destaca o autor, afirmar a importncia da hospitalidade o mesmo que corroborar a indispensabilidade da acessibilidade nos estabelecimentos, uma vez que se ser hospitaleiro atender bem, consequentemente aquele que deseja ser hospitaleiro, deve permitir que todos tenham acesso a todo espao do seu estabelecimento.

Nesse contexto, destaca-se ainda que a preocupao em atender as questes da acessibilidade primordial, entretanto deve-se ter o cuidado em perceber que o ato da hospitalidade implica no somente a abertura de espaos e confortos fsicos, de desempenhos intelectuais e comportamentais, mas tambm, e em grande medida, implica a abertura de espaos emocionais e intuitivos voltados a um ser desconhecido (LOPES; BARBOSA; SONDA, 2015, p. 37).

Portanto, a preocupao em proporcionar o bem estar e promover um ambiente agradvel s pessoas, de extrema relevncia no turismo rural. Essa aproximao com a natureza requer muito mais que apenas a contemplao natural do ambiente, mas a interao entre os diversos atores inseridos nessa modalidade turstica, de forma a estabelecer uma aproximao maviosa e hospitaleira.

 

4.      A acessibilidade: um enfoque sobre o turismo acessvel

Tendo em vista a importncia da hospitalidade no turismo rural, torna-se imprescindvel destacar a acessibilidade nesse contexto, uma vez que no h como abordar a hospitalidade sem mencionar a acessibilidade, pois aquela visa o bem receber, a relao entre o anfitrio e o visitante que deve prevalecer em qualquer ambiente, inclusive nos estabelecimentos rurais. A hospitalidade busca fidelizar esse turista com limitaes e, portanto, visa atrair turistas para o turismo rural.

Segundo a Secretaria Nacional de Promoo dos Direitos das Pessoas com Deficincia (SNPD, 2015), acessibilidade definida como:

 

Acessibilidade um atributo essencial do ambiente que garante a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Deve estar presente nos espaos, no meio fsico, no transporte, na informao e comunicao, inclusive nos sistemas e tecnologias da informao e comunicao, bem como em outros servios e instalaes abertos ao pblico ou de uso pblico, tanto na cidade como no campo (SNPD, 2015).

 

A questo da acessibilidade complexa e como tal deve ser estudada, a fim de se estabelecer o maior leque de informao a respeito das dificuldades que quando no atendidas, inviabilizam o atendimento e o acolhimento do pblico. Ainda no intuito de definir a questo da acessibilidade, a lei n 13.146, de 6 de julho de 2015 que institui a Lei Brasileira de Incluso da Pessoa com Deficincia (Estatuto da Pessoa com Deficincia) define a acessibilidade em seu artigo 3o inciso I como sendo a:

 

[...] possibilidade e condio de alcance para utilizao, com segurana e autonomia, de espaos, mobilirios, equipamentos urbanos, edificaes, transportes, informao e comunicao, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros servios e instalaes abertos ao pblico, de uso pblico ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficincia ou com mobilidade reduzida (BRASIL, 2015, p. 01).

 

Observa-se que a lei traz a proposta de acessibilidade tanto em ambiente urbano como rural, uma observao que j era destacada em legislaes anteriores, e que continua a ser enfatizada, o que afirma a ideia bsica, de que as pessoas que possuam limitao devem poder usufruir de todo tipo de ambiente, inclusive os rurais.

Ainda nesse contexto h de se abordar o turismo acessvel, como forma de permitir que todos tenham amplo acesso ao turismo, eliminando barreiras que venham a impedir sua apreciao.

Segundo Peixoto e Neuman (2009 p. 147), turismo acessvel fazer viagens e destinos, produtos de informao turstica apropriados para todos aqueles que tm necessidades especiais ao nvel da acessibilidade, os seus familiares e amigos sem nenhum sector ou grupo seja descriminado devendo constituir uma realidade acessvel em alojamento, transporte [].

J para Duarte et al (2015, p. 539), o turismo acessvel, mais especificamente, surge como potencial motivador da incluso social, visando ampliao da participao de todos em tal atividade, com a finalidade de proporcionar s pessoas a oportunidade de acesso a atividades comuns e no em grupos isolados e estigmatizados.

Em suma, imprescindvel que haja esta conscientizao, para que os estabelecimentos tursticos busquem sanar as necessidades de adaptao dos seus espaos, uma vez que essa conscientizao permite destinar o olhar de maneira ampla e inclusiva. No tocante ao turismo rural, tambm importante que haja esse olhar acessvel, para que a pessoa com deficincia possa apreciar esse servio, usufruindo do lazer, da comodidade e das atividades que so oferecidas, para que no haja entraves quanto ao uso dos espaos rurais, possibilitando o contato rural de forma totalitria.

Desta forma, destaca-se ainda um outro aspecto que influencia no atendimento ao turista pois est diretamente enleado a estrutura bsica a ser utilizada: o design universal ou desenho universal que engloba o processo em que solues de acessibilidade que teriam um apelo para aceitao mercadolgica e uma absoro na vida cotidiana de um grande pblico. Devemos lembrar ainda que design tem vnculo com o termo portugus desgnio, isto , deciso a ser adotada numa sequncia de tantas escolhas possveis e compatveis com o contexto em que o produto do design se destina (CORREA, 2009, p.89).

O design universal ou desenho universal, segundo as autoras Dorneles, Afonso e Ely (2013 p. 56), combina as necessidades de todas as pessoas, para criar espaos inclusivos. Pois as necessidades relativas ao uso dos espaos variam conforme as caractersticas fsicas dos usurios e de suas habilidades.

Ainda nessa linha de raciocnio, Duarte e Borda (2013, p. 367) afirmam que o turismo inclusivo no abrange apenas os deficientes fsicos, mas tambm as pessoas denominadas com mobilidade reduzida, incluindo tambm aquelas que possuem algum tipo de limitao que, porventura, possa ser momentnea.

Portanto, pensar em um turismo acessvel debater as diversas variveis que influenciam o turismo no tocante acessibilidade, compreender desde a construo dos espaos e atividades adequados s necessidades dos usurios, buscar formas e mecanismos que sejam inclusivos e capazes de atender e atrair a populao como um todo. Trata-se, portanto, em definir a relao das reas rurais e o que estas podem oferecer aos turistas de forma acessvel, salientando sempre a questo da hospitalidade.

 

5.                  Metodologia

Tendo em vista o objetivo deste artigo, inicialmente foi realizada como tcnica de pesquisa a bibliogrfica. Segundo Gil (1991), a principal vantagem da pesquisa bibliogrfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenmenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente.

Assim, foram feitas pesquisas sobre os assuntos relacionados ao tema proposto em livros, artigos, dissertaes e demais publicaes a respeito do tema estudado, que deram fundamento necessrio ao estudo. Alm disso, este trabalho teve respaldo na pesquisa documental por meio do levantamento de conceitos voltados a acessibilidade, a partir da legislao governamental.

Quanto a seleo dos estabelecimentos investigados, o critrio se deu por uma amostragem no probabilstica, por acessibilidade na medida em que os estabelecimentos pesquisados foram aqueles aos quais o pesquisador teve acesso e autorizao para a realizao do estudo.

Na coleta de dados usou-se a forma de um roteiro de entrevista, onde o objetivo foi verificar at que ponto os estabelecimentos se encontravam ou no devidamente adaptados para receber as pessoas com deficincia e se em tais estabelecimentos havia alguma preocupao em relao a hospitalidade nesse quesito.

Para a realizao da entrevista, optou-se pelo emprego de um roteiro de entrevista semiestruturado, elaborado pelos pesquisadores especificamente para este estudo. Ao todo, foram investigados 13 estabelecimentos que, apesar de serem analisados de forma global, foram distribudos nos segmentos apresentados no Quadro 01:

Quadro 01. Quantidade e discriminao dos estabelecimentos investigados

Segmento

Quantidade

Restaurantes

05

Pousadas

02

Pesque e Pague

02

Clubes

02

Hotis

02

Total

13

 

O roteiro de entrevista em questo, direcionado ao proprietrio ou gerente do estabelecimento, foi dividido nos seguintes blocos: caracterizao do respondente; caracterizao do estabelecimento; adaptao do estabelecimento; divulgao da adaptao do estabelecimento; e pessoas com deficincia como segmento de mercado/clientes em potencial.
Tendo em vista a forma de abordagem desse levantamento, entende-se que este estudo teve carter
qualitativo. De acordo com Minayo (2004), a pesquisa qualitativa importante por compreender os valores, a cultura e as representaes dos grupos sociais envolvidos sobre o tema pesquisado, abrangendo as relaes desenvolvidas entre os grupos sociais, tanto no mbito das instituies, como no dos movimentos sociais. Tal metodologia se justifica, tendo em vista a natureza do estudo que visa analisar de forma exploratria o potencial para um turismo rural na regio de Planaltina - DF analisando, alm de dados fsicos, as percepes dos entrevistados em relao ao tema proposto.

 

6.                  Anlise dos dados

Tendo em vista a discusso anteriormente levantada em relao ao turismo rural, abordaremos a seguir as informaes coletadas nos estabelecimentos do turismo rural na regio de Planaltina - DF, enfatizando os aspectos concernentes a acessibilidade dos mesmos.

 

6.1.                Um olhar histrico e estrutural sobre o Planaltina DF

Para entender um pouco mais a acessibilidade no turismo rural em Planaltina DF, elevando suas potencialidades para turismo rural, necessrio compreender o histrico de Planaltina DF e regio, objeto do estudo deste trabalho.

Segundo Paulino et al. (2012 p. 24):

Planaltina uma Regio Administrativa do Distrito Federal e se situa a aproximadamente 40 quilmetros do Congresso Nacional. Cerca de 200 mil pessoas habitam em sua rea rural e em seus 13 setores, tais como Setor Tradicional, Setor de Integrao, Vila Vicentina, Bairro Buritis (I, II, III e IV) e Vila Nossa Senhora de Ftima. O Centro Histrico de Planaltina est situado no Setor Tradicional, o mais antigo. Comparado com o planejamento urbanstico feito para abrigar os Poderes Executivo, Legislativo e Judicirio, o Centro Histrico de Planaltina exibe registro de caractersticas histricas do sculo XIX, com casas coloniais e a Igreja de So Sebastio. (PAULINO, et al. 2012 p. 24)

O fato de Planaltina possuir diversos eventos e celebraes anualmente, pode atrair turistas de outras cidades e regies, de forma que exige do turismo rural a adequao e a promoo de ambientes acessveis e hospitaleiros, incentivando a construo de atrativos previamente projetados nos moldes do desenho universal.

Destaca-se ainda que a cultura bicentenria de Planaltina DF visvel nos casarios antigos do Setor Tradicional e na Pedra Fundamental, cuja histria desperta interesse em turistas do mundo todo. H outras atraes como a Estao de guas Emendadas assim chamada porque l h o encontro de nascentes que do origem s Bacias Amaznica, Platina e Sanfranciscana (MENDES, 2009).

A estao de guas Emendadas :

Uma unidade de conservao de proteo integral destinada proteo do ambiente natural, realizao de pesquisas bsica e aplicada em ecologia e educao conservacionista. Pelo seu excelente estado de conservao dos ecossistemas foi declarada em 1992 pela Unesco como uma das reas que compem a rea nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado (fase I). No permitida visitao pblica, apenas a permanncia de pesquisadores e atividades de cunho educacional. (MOSCOSO, 2016)

 

J a pedra Fundamental possui uma histria que, segundo Gomes (2009), teve incio em 1920 quando o ento presidente Epitcio Pessoa assina o decreto que prev o incio da construo da Nova capital do Brasil. No ano posterior, em 1921 os deputados Rodrigues Machado e Americano do Brasil, apresentam juntos o projeto 680 de 1921 que manda ser colocada no Planalto Central, como parte das comemoraes do centenrio da independncia do Brasil, a pedra fundamental. Em 7 de setembro de 1922 foi lanada a pedra fundamental em Planaltina-DF.

 Percebe-se, portanto, o potencial turstico de Planaltina e, neste sentido, o estudo nos estabelecimentos rurais da regio como restaurante, pesque-pague, hotis, clubes e pousadas, se mostra importante na medida em que entende-se que devam estar preparados para prestar um servio adequado as necessidades de seus diversos pblicos, dentre esses as pessoas com deficincia, objeto desse trabalho.

 

6.2  Caracterizao dos estabelecimentos investigados

Inicialmente buscou-se definir o perfil de cada entrevistado, que de 13 estabelecimentos, 07 foram do sexo masculino e os outros 06 foram femininos, sendo que todos possuam de 29 a 43 anos e ocupam cargos de gerncia ou so donos do estabelecimento h no mximo 10 anos, tendo apenas 03 deles com experincia no ramo, o que pode influenciar na administrao e atendimento nesse segmento.

Dos 13 estabelecimentos rurais encontrados em Planaltina DF, pesquisou-se 2 hotis rurais, que oferecem lazer, alimentao e hospedagens, 2 clubes, que tambm oferecem alimentao e lazer, 2 pesque e pagues que oferecem o lazer e alimentao, enfatizando a pesca e o consumo de peixes no local, 5 restaurantes e 2 pousadas que oferecem oficinas e lanches para os turistas.

Numa perspectiva mais ampla, com foco e uma abordagem mais direcionada ao perfil de cada estabelecimento, procurou-se destacar a localizao de cada estabelecimento, constatando que dos 13, apenas um prximo ao centro urbano de Planaltina DF.

Constatou-se que o tempo de existncia do estabelecimento varia de 1 a 20 anos, alguns declararam que anteriormente o local prestava outros servios, mas no souberam destacar com certeza que atividade era desenvolvida.

 

6.3                  Adaptao dos estabelecimentos

Observou-se que dos 13 estabelecimentos, 10 declararam que o seu local est adaptado para receber pessoas com deficincia. Um dos hotis pesquisados declarou que muito importante adaptar as suas instalaes, pois permite o acesso a todo o tipo de pblico, alm de colaborar para o bom atendimento. Na mesma linha, um dos donos de um restaurante destacou ainda que, o fato de permitir o acesso de maneira generalizada, aumenta a demanda e consequentemente o lucro.

Tais depoimentos espelham que os entrevistados demonstram a importncia de ter as instalaes adaptadas para receber pessoas com deficincia, pois as mesmas tambm repercutem na qualidade do servio prestado, no bem atender e na boa relao entre o anfitrio e cliente, o que essencial na relao que visa a hospitalidade.

Tendo em vista esse entendimento a respeito de como a acessibilidade pode influenciar na oferta dos servios, e como ela impacta no turismo rural, buscou-se saber dos 10 estabelecimentos que se declararam adaptados, se j havia preocupao em adaptar o estabelecimento desde a sua inaugurao, de maneira que fosse possvel oferecer todos os servios de uma forma inclusiva.

Diante disso, 7 dos 10 estabelecimentos declararam j haver essa preocupao, em promover um espao e servios que fossem inclusivos. O responsvel por uma das pousadas pontuou que adaptar o estabelecimento, poderia ajudar no acolhimento dos turistas, alm de aumentar a demanda. Este relato vai ao encontro ao do que est descrito na literatura e demonstra ser caracterstica inerente ao desenho universal, segundo ressaltam Heylighen e Bianchin (2010), ao declarar a importncia de se ter em mente o desenho universal desde o incio do projeto, para que sua efetividade seja alcanada expondo essa preocupao com incluso e acessibilidade, permitindo que todos possam ter acesso ao ambiente natural, rstico e prprio do turismo rural.

Dos 3 estabelecimentos que declararam no serem adaptados, todos relataram no terem tido essa necessidade at o momento, pois alegaram no ter uma demanda que justifique essas adaptaes. Apenas um pesque pague disse ter um projeto para adaptar o banheiro do estabelecimento, no prazo de at 2 anos.

Portanto, de maneira geral esses estabelecimentos disseram ser adaptados para receber as pessoas com deficincia, entretanto no Quadro 2 apresenta que nem todos os quesitos necessrios para a limitao motora foram contemplados nos locais investigados.

 

Quadro 2: Resultados da pesquisa quanto a limitao motora

 

LIMITAO DO

TIPO

 

ITEM

 

ESTABELECIMENTOS QUE POSSUEM ADAPTAO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MOTORA

Estacionamento com vagas reservadas para deficientes

6 estabelecimentos

Estacionamento com vagas reservadas para idosos

6 estabelecimentos

Rampa(s) para ingresso no estabelecimento/recepo

11 estabelecimentos

Barras de apoio em rampas

2 estabelecimentos

Barras de apoio em escadas

2 estabelecimentos

Portas mais largas

10 estabelecimentos

Corredores mais largos

10 estabelecimentos

Elevador(es)

Nenhum estabelecimento

Recepo/balco e caixa mais baixos

8 estabelecimentos

Telefones na altura adequada para cadeirantes

8 estabelecimentos

Mveis em altura adequada para deficientes com limitao motora

9 estabelecimentos

Possui circulao adequada a todos os ambientes do local (sem restrio) para pessoas com limitao motora

7 estabelecimentos

Banheiro(s) pblico(s) adaptados

Nenhum estabelecimento

rea para manobra da cadeira de rodas

10 estabelecimentos

Profissional do estabelecimento devidamente treinado para acompanhar essa pessoa com limitao motora

Nenhum estabelecimento

Outros. Quais? ___________________

 

 

Fonte: Dados primrios

Conforme est evidenciado no quadro anterior, constatou-se que apenas 6 estabelecimentos possuam vagas reservadas, tanto para idoso quanto para deficientes. O proprietrio de um pesque pague relatou que no possumos vagas reservadas, mas caso surja algum deficiente ou idoso, ou algum que necessite de vaga no estacionamento, ns encontramos uma vaga na hora. Entende-se que essa medida pode no ser to eficiente, pois em casos de dias lotados, pode no haver vaga para este pblico.

Entende-se que este depoimento demonstra a falta de preocupao com as vagas de estacionamento para deficientes e idosos e revela o descaso para com esse segmento. Assim, corroborando com Stefanni, Alves e Marques (2018), a experincia no momento do consumo do servio (no qual o item estacionamento a experincia inicial na prestao do servio) pode se revelar como algo frustrante, prejudicando a satisfao do cliente e de sua famlia e consequente fidelizao.

Quanto as rampas de acesso ao estabelecimento, apenas 2 estabelecimentos no possuem. Dentre esses, a Figura 1 registra a entrada de um pesque pague prximo ao municpio de Formosa-GO localizado na regio de Planaltina-DF:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1: Entrada de Pesque pague

Fonte: Dados primrios

A Figura 2 foi registrada em um hotel prximo ao municpio de Planaltina-GO localizado na regio de Planaltina-DF, na qual est evidente a inexistncia de rampas e a dificuldade que um deficiente possuidor de limitao motora enfrenta para obter o acesso a rea de lazer, ao sair dos quartos.

Figura 2: rea de lazer

Fonte: Dados primrios

Analisando as fotos anteriormente apresentadas, constata-se que o fato de ser um ambiente considerado mais rstico, afinal estamos trabalhando com turismo rural, no significa que deva existir a falta de adaptao dos equipamentos para bem receber todos os pblicos e, dentre esses, as pessoas com deficincia. Isso corrobora com o pensamento de Fernandes, Santos e Rejowski (2017) que consideram que o bem receber no turismo indispensvel, independente de qual modalidade/tipo de turismo seja ofertado.

No tocante a adaptao necessria para um cliente com limitao visual, o quadro 3 apresenta os dados encontrados nos estabelecimentos pesquisados.

 

Quadro 3: Resultados da pesquisa quanto a limitao visual

 

LIMITAO DO

TIPO

 

ITEM

 

ESTABELECIMENTOS QUE POSSUEM ADAPTAO

VISUAL

Cardpio em Braile

Nenhum estabelecimento

Cardpio com letras de fcil visualizao (tamanho de letra adequado)

Nenhum estabelecimento

Piso ttil

Nenhum estabelecimento

Profissional do estabelecimento devidamente treinado para acompanhar essa pessoa com limitao visual

Nenhum estabelecimento

Possui circulao adequada a todos os ambientes do local (sem restrio) para pessoas com limitao visual

Nenhum estabelecimento

Permisso para entradas de animais (no caso, co guia)

13 estabelecimentos

Corrimo nas escadas/rampas

2 estabelecimentos

Folders sobre a promoo/divulgao do estabelecimento em braile

Nenhum estabelecimento

Outros. Quais? ______________

 

Profissional do estabelecimento com conhecimento em lnguas de sinais

Nenhum estabelecimento

Fonte: Dados primrios

Quanto aos possuidores de limitao visual constatou-se, a impossibilidade por grande parte dos estabelecimentos em recepcionar esses clientes, visto que apenas 2 caractersticas foram atendidas por alguns dos estabelecimentos: a permisso para entrada de animais e a existncia de corrimo nas escadas e rampas. Pode-se observar a Figura 3 que demonstra essa realidade no pesque pague. Nota-se que a pessoa com deficincia motora e visual possuir dificuldade para subir at a rea de descanso, visto que a rampa ngreme e no possui nenhum tipo de corrimo.

Figura 9: Rampa de acesso rea de descanso

Fonte: Dados primrios

 

Tambm considerou-se a limitao do tipo auditiva, para que fosse averiguado em cada estabelecimento caractersticas que atendessem a esse tipo de limitao, conforme apresentado no Quadro 4.

Quadro 4: Resultados da pesquisa quanto a limitao auditiva

 

LIMITAO DO

TIPO

 

ITEM

 

ESTABELECIMENTOS QUE POSSUEM ADAPTAO

 

 

AUDITIVA

Possui circulao adequada a todos os ambientes do local (sem restrio) para pessoas com limitao auditiva

7 estabelecimentos

Outros. Quais?

 

Fonte: Dados primrios

Constatou-se que em 7 estabelecimentos, possuam a circulao adequada para todos os ambientes do local, tendo em vista que nos mesmos haviam sinalizaes e avisos que orientavam o deficiente auditivo. necessrio destacar que essas propriedades no so muito grandes, o que facilita o acesso em todos os ambientes, de forma que o deficiente auditivo no teria nenhum problema em usufruir dos espaos oferecidos.

Por fim, buscou-se atravs da anlise fsica de cada estabelecimento mostrar especificamente as caractersticas dos banheiros, conforme evidenciado no Quadro 5.

 

Quadro 5: Estrutura dos banheiros investigados

 

LIMITAO DO

TIPO

 

ITEM

 

ESTABELECIMENTOS QUE POSSUEM ADAPTAO

 

 

 

 

ESPECIFICAMENTE NO BANHEIRO

 

 

 

Campainha em caso de emergncia

3 estabelecimentos

Barras de apoio ao redor do vaso sanitrio

Nenhum estabelecimento

Indicao em braile

Nenhum estabelecimento

Piso antiderrapante

Nenhum estabelecimento

Tamanho adequado para circulao de cadeirantes

3 estabelecimentos

Pia e espelho em alturas acessveis

9 estabelecimentos

Outros. Quais? ________________

 

Sinalizao visual

4 estabelecimentos

Fonte: Dados primrios

 

Tendo em vista a importncia da acessibilidade nos banheiros, buscou-se investigar se os mesmos esto adaptados para receber as pessoas com deficincia. A pesquisa aponta que nenhum estabelecimento possui barras de apoio ao redor do vaso sanitrio. Neste sentido, a Figura 10 apresenta um banheiro sem o espao necessrio para a cadeira de rodas, porta estreita e sem barras de apoio.

Figura 10: Banheiro no adaptado

Fonte: Dados primrios

 

Por outro lado, a Figura 11 demonstra banheiro com pia em altura acessvel.

Figura 15: Banheiro com pia acessvel

Fonte: Dados primrios

 

Conforme fica evidente nas anlises anteriores, as adaptaes variam para cada estabelecimento, dos 13 estabelecimentos, observou-se que apenas 3 possuam maior nmero de adaptaes e, mesmo assim, adaptaes estritamente bsicas, como rampas, barras de apoio em rampas e espaos amplos, o que comprova que h uma grande discrepncia entre a fala dos entrevistados e a realidade do estabelecimento. Constatou-se atravs das observaes que no existem adaptaes especficas, uma vez que os banheiros no so adaptados, no h sinalizao ttil, apenas 2 dos 13 estabelecimentos possuem corrimo nas escadas ou rampas, alm de no haver um profissional no estabelecimento devidamente treinado para acompanhar pessoas com limitaes.

Analisando os dados coletados, constata-se a total falta de estratgicas que visem atender de forma plena as necessidades desse pblico. A ausncia de visualizao deste como um segmento de mercado prejudica a atuao do estabelecimento de forma competitiva, na medida em que, conforme abordado por Stefanni, Alves e Marques (2018), as caractersticas hospitaleiras proporcionam ao empreendimento focado no seu pblico um diferencial competitivo.

Portanto, observou-se que no h caractersticas significativas que comprovem a acessibilidade nesses estabelecimentos, visto que faltam adaptaes bsicas que proporcionem o mnimo de conforto s pessoas deficientes. Isso gera barreira para que se concretize o turismo rural acessvel na regio de Planaltina - DF, ao no prover um ambiente apropriado para todos, sem constituir uma realidade acessvel como em casos de alojamento, transporte ou outros fatores, conforme destacam Peixoto e Newman (2009).

 

6.4                  Demanda das pessoas deficientes nos estabelecimentos investigados

Diante da importncia da acessibilidade, buscou-se saber se existia uma procura dessas pessoas, suas famlias ou amigos aos estabelecimentos investigados. A pesquisa demonstra que 4 restaurantes disseram ser bastante procurados por parte desse pblico, alguns justificaram essa procura pelo fato de ser um ambiente familiar, de haver um bom atendimento e pela alimentao tpica do ambiente rural. J 5 disseram que no h procura por esse pblico, o que pode ser justificado pela falta de divulgao, mas segundo o dono de um pesque pague: acho que quem usa esses espaos rurais, so pessoas que possuem uma disposio e uma boa sade fsica para enfrentar os relevos naturais. Do restante de 4 estabelecimentos, o responsvel por uma das pousadas disse que a procura pouca, porque muitos no se interessam por ambientes rsticos e oficinas vivenciais, j que em sua pousada so oferecidas oficinas e servios voltados para o cuidado ambiental.

Quando interrogados sobre a relao entre as instalaes adaptadas e a procura pelas pessoas com deficincia ao estabelecimento, observou-se que 12 estabelecimentos concordam que se as modificaes fossem realizadas para tornar o local acessvel, isso poderia aumentar a demanda por esse pblico.

Do ponto de vista da hospitalidade, tida como o bom atendimento conforme enfatizam Lopes, Barbosa e Sonda (2015) ao abordar esse princpio como sendo o ato de receber com cordialidade, acolher, dar conforto e oferecer o bem estar, indagou-se aos entrevistados como as adaptaes voltadas para a acessibilidade poderiam influenciar na questo da hospitalidade. Todos pontuaram que a hospitalidade muito importante, as justificativas foram das mais variadas, a saber: pois todos usam o espao, e isso faz com que todos se sintam bem; outra resposta foi no h desconforto; ou ainda no exclui e ignora as pessoas com deficincia. O proprietrio de um dos clubes enfatizou que atender a esse pblico no s agrada a pessoa que possui limitao, mas a famlia deles, que sentem-se bem ao perceber que eles esto confortveis.

Constata-se que tais relatos corroboram com o pensamento de Wada e Goldenberg (2017) que consideram que a hospitalidade aumenta a percepo de qualidade do servio prestado pelo consumidor e pode ganhar competitividade.

Quanto a preocupao em permitir que todos (pessoas com ou sem deficincia) usufruam de todos os servios prestados pelo estabelecimento, apenas 2 disseram no se preocupar com essa questo, por no acharem necessrio. O entrevistado de um hotel relatou que j que ningum reclamou at agora, no h com que nos preocuparmos. Dos que disseram se preocupam com essa questo de 11 estabelecimentos, 6 deles mencionaram que se preocupam, pois importante para o negcio. Outro entrevistado relata que quando o usurio sai satisfeito ele sempre volta. J outro justifica pois o foco receber a todos alm de oferecer o bem estar. Conforme evidenciou-se na teoria aqui exposta, essa preocupao em permitir que todos usufruam de todos os servios prestados pelo estabelecimento deve ser constante, pois Devile (2009) reconhece que todos estabelecimentos deviam se adequar a acessibilidade, proporcionando servios e atividades orientadas para os gostos e preferncias de pessoas que tenham limitaes.

Quanto existncia de profissionais qualificados para o bom atendimento no estabelecimento, todos declararam que no possuem, o que gera um entrave a promoo e desenvolvimento do turismo rural na regio, mas no a impossibilidade de oferecer um ambiente hospitaleiro e aconchegante aos turistas. No entanto necessrio que hajam esses profissionais, uma vez que existem estabelecimentos com at 60 funcionrios e que recebem entorno de at 200 pessoas a depender do dia, o que exige ateno especial no tocante a questo do atendimento.

7.      Concluso

Inicialmente, necessrio enfatizar que promover a acessibilidade permitir que todos tenham acesso a variados servios, de maneira plena e indiscriminadamente. Tendo essa afirmao como fundamento, abordou-se inicialmente temas que pudessem corroborar essa afirmao, a saber: a hospitalidade e o turismo acessvel.

Tendo em vista que o assunto proposto uma contribuio temtica referente ao turismo rural, isso torna o tema peculiar e merecedor de ateno. Alm de constatar-se na literatura uma escassez de discusses que aliem o turismo rural aliada questo da acessibilidade, sob a tica da hospitalidade.

Desta forma, tendo em vista o carter exploratrio do estudo, a proposta foi mapear na regio de Planaltina - DF estabelecimentos que permitissem a realizao de um turismo rural, analisando os mesmos sob a tica da acessibilidade. Diante desses aspectos constatou-se uma preocupao significativa por parte dos estabelecimentos em oferecer um servio acessvel, no entanto todos os 13 estabelecimentos demonstraram ser carentes de acessibilidade, pois notou-se inexistncia de aspectos bsicos de um ambiente acessvel, como por exemplo a falta de barras de apoio, de cardpios com letras adequadas e banheiros adaptados.

Por outro lado, a pesquisa apontou que os estabelecimentos investigados apresentam alguns itens voltados para a acessibilidade, como rampas, estacionamento com vagas para deficientes, portas e corredores mais largos. Entretanto, tais aspectos esto voltados sobremaneira para limitao motora e carecem de uma estrutura voltada para os outros tipos de limitaes.

Alm disso, as entrevistas e observaes feitas nesses estabelecimentos revelaram os problemas, as dificuldades e os desafios que a regio de Planaltina - DF enfrenta para o desenvolvimento de um turismo rural acessvel. Dentre essas, destaca-se a falta de informao a respeito das adaptaes necessrias, a inexistncia de orientao e conscientizao a respeito do tema.

A maioria dos estabelecimentos (11 estabelecimentos) reconhece a importncia da acessibilidade, assim como da hospitalidade, no entanto a dificuldade maior como implementar essas adaptaes, visto que 6 deles at desejam realizar essas modificaes, mas no sabem como faz-la de forma apropriada, por onde iniciar e qual limitao dar mais ateno. Por outro lado, a pesquisa apontou que 5 estabelecimentos no tiveram interesse no assunto, alegando a falta de demanda e por achar que o estabelecimento estava adaptado j que no havia reclamao nesse sentido.

Verificou-se que h um ambiente propcio para que haja acessibilidade no turismo rural na regio de Planaltina-DF, mas para que isso ocorra necessrio orientao sobre como adaptar os estabelecimentos e como essas adaptaes vo influenciar no atendimento ao pblico, alm de contribuir para o alcance e aprimoramento da hospitalidade.

Tendo em vista a natureza de cada segmento do turismo rural em Planaltina DF, tais quais: hotel, restaurantes, pesque pague, clube e pousadas, constatou-se que os mais propensos a adaptar so os hotis, conforme apontado nos depoimentos obtidos. Isso pode ser justificado pela diversidade de servios que oferecem, o que fora o proprietrio a realizar adaptaes a fim de manter todos no recinto confortveis quanto a acomodao, lazer e alimentao. Este leque de servio que os hotis fornecem fazem com que, caso um turista se sinta insatisfeito com um dos servios, pode no retornar ao estabelecimento, prejudicando assim o setor e at a demanda para esta regio.

Portanto, h ainda um enorme passo a ser dado em Planaltina DF quanto a acessibilidade no turismo rural, para que esses estabelecimentos possam receber todas as pessoas com deficincia de forma adequada e com a hospitalidade que necessitam, mas para isso necessrio auxlio e iniciativas governamentais, que possam estabelecer orientaes para esses estabelecimentos quanto as normas de acessibilidade no Brasil. Recomenda-se que os estabelecimentos divulguem as adaptaes realizadas nos seus diversos veculos e que procurem auxlio e orientaes para possveis adaptaes futuras no seu espao.

 

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Artigo recebido em: 10/01/2018

Avaliado em: 35/04/2018

Aprovado em: 15/05/2018

 

 

 

 

 



[1] Possui doutorado em Engenharia de Produo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente Professora Adjunta da Universidade de Braslia. E-mail: donaria@unb.br

[2] Graduando em Gesto do Agronegcio pela Universidade de Braslia (UnB). E-mail: gleitonalvesdeoliveira@hotmail.com



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